E assim se formou o resultado do 2º turno em Fortaleza

Sarto e Capitão: estratégias, erros e acertos na corrida pela Prefeitura de Fortaleza

Capitão Wagner: da liderança à desconstrução
O candidato do Pros começou a campanha com astral lá em cima, para segurar a liderança nas pesquisas. Ele sabia que viriam as pesadas tentativas de desconstrução – como vieram. No meio do processo, começou a acusar o golpe, até que, sem outra opção, partiu para a tardia defensiva. Por fim, foi ao contra-ataque, já sem forças e tempo para reverter o cenário desfavorável.

José Sarto: três etapas e duas metas a cumprir
O candidato do PDT seguiu o script que qualquer candidato na condição dele seguiria: apresentação ao grande público, no início; associação aos bem avaliados Roberto Cláudio e Camilo Santana no meio do processo e, por fim, ser propositivo. Além disso, tinha diante de si duas metas claras: passar Luizianne Lins (PT) no primeiro turno e derrotar o Capitão no segundo.

São Paulo: o vácuo petista ocupado pelo Psol

Com tantas variáveis em questão e o histórico de imprevisibilidade eleitoral, é cedo para se projetar o tamanho do avanço que a esquerda, personalizada no Psol de Guilherme Boulos, terá na cidade de São Paulo. Mas, uma certeza, pelo menos, já está posta: o pequeno notável partido já é um dos vitoriosos neste 2020, em visibilidade – independentemente do que as urnas paulistanas revelem, neste domingo. O Psol está ocupando o vácuo deixado pela narrativa envelhecida do PT que, preso ao passado, não consegue projetar o próprio futuro.

Eleições 2020: a verdade das urnas e os mitos que ficaram pelo caminho

A campanha eleitoral que está terminando ensinou muita gente. De candidatos a analistas, passando pelos próprios governos. O primeiro grande ensinamento foram os resultados em si, nos quais o eleitorado deixou os radicais – à direita e à esquerda – de fora da maioria dos grandes resultados. O cidadão votante prestigiou as forças mais ao centro – sem entrar aqui no mérito qualitativo de tais grupos. A tão badalada nacionalização não veio. Ou seja, na linha geral dos resultados, foi a localidade da vida real, calcada na boa gestão, a balança preferida de quem foi à cabina de votação pesar os méritos e deméritos deste ou daquele candidato.

O pleito que se encerra por estes dias derrubou, também, um dos maiores mitos da estratégia política de que se tem notícia no Brasil: antipático aos olhos e ouvidos do eleitor, atacar tira votos de quem ataca. Essa convicção era tamanha que, não raramente, grandes candidaturas terceirizavam as críticas e denúncias, via postulantes laranjas. A dinâmica e o resultado do primeiro turno mostram, claramente, que tentar destruir o adversário segue sendo um bom negócio. E, por último, a força dos veículos tradicionais de imprensa e do jornalismo raiz. Muitos deram tais ferramentas como irrelevantes ou superados. Quem acreditou nesse canto se deu mal.

Dois políticos, com méritos semelhantes e visões diferentes sobre o mesmo cenário

Eduardo Girão e André Figueiredo: visões diferentes, méritos parecidos

O senador Eduardo Girão (Podemos) é um missionário da política. Imagina-se à frente de um projeto cujos frutos vão além dos colhidos nos pragmáticos jogos do poder. Abraça causas ligadas aos valores sociais, da família e da vida. É conservador. Convicto do que pensa e defende, empunha a bandeira da renovação na política, por acreditar que a alternância oxigena a democracia. Neste 2020 eleitoral, Girão coordena a campanha do candidato do Pros à Prefeitura de Fortaleza, Capitão Wagner.

O deputado federal André Figueiredo (PDT) é um trabalhista raiz, da linhagem direta do velho e inspirador Leonel Brizola. Profundo conhecedor dos meandros brasilienses, é um dos “cabeças” da Câmara dos Deputados e já despachou na Esplanada dos Ministérios. Admirado por aliados e respeitado por adversários, abraça o revolucionário projeto educacional encabeçado pelos Ferreira Gomes no Ceará. André preside o partido que pretende dar continuidade, com o candidato a prefeito, José Sarto, ao projeto vitorioso em Fortaleza – a mais importante cidade administrada pelo PDT.

Mesmo com estradas, visões, histórias de vida e times de futebol diferentes, Girão e André são dois homens da boa política. Nos últimos dias, ambos dividiram um pouco de sua experiência de vida pública com os telespectadores da TV Otimista, no programa Eleições 2020, apresentado por este colunista. Em edições diferentes, cada um defendeu, com estatura, seu candidato, mostrando que é possível fazer política com “P” maiúsculo.

Quiseram as circunstâncias que o senador e o deputado federal estivessem, nesta acirrada campanha, atuando em campos diferentes – não em campos certo ou errado. São dois políticos parecidos nos méritos, mas com visões diferentes sobre o cenário eleitoral. Provavelmente, até mesmo desejando avanços semelhantes para a Cidade de Fortaleza.

Longe do ramerrame da política eleitoral, Tasso vai estendendo seu legado

Senador Tasso Jereissati segue fincando bandeiras de largo alcance social

Dois dos três senadores cearenses – Cid Gomes (PDT) e Eduardo Girão (Podemos) -, mergulharam de  cabeça nas disputas municipais de 2020. No primeiro turno, ambos colheram resultados expressivos e, no segundo, estão, cada um no seu grupo político, tentando resultados positivos em Fortaleza e Caucaia. Enquanto isso, Tasso Jereissati, com seu PSDB desidratado, resolveu, neste 2020, percorrer outros rumos, distante do habitual clima eleitoral. Nos últimos meses, o tucano –  notório parlamentar acima da média do Senado –, segue se destacando em bandeiras estruturantes da vida nacional, com peso de nível histórico.

Integrante da Frente Parlamentar da Renda Básica, Tasso tem discutido com especialistas a necessidade de estabelecer no País maior e melhor proteção social aos mais pobres. Mas não é só debate. Simultaneamente, o ex-governador do Ceará apresentou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria o Benefício Universal Infantil – programa que atenderá famílias com integrantes de até 14 anos. Mais especificamente, aqueles com idade de zero a seis anos. O texto permite integração parcial ou total com os programas Salário-Família e Bolsa Família. Fonte de financiamento? A partir da revisão/redução de benefícios fiscais.

Referência de gestão e ações de largo alcance social
Já, literalmente, em capítulos de livros de História do Ceará, Tasso Jereissati é, seguidamente, apontado como um dos “cabeças” do Congresso Nacional. Nos últimos meses, destacou-se no plano nacional, quando coordenou os trabalhos na Casa sobre o Marco Regulatório do Saneamento, que prevê a universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil até 2033. Nos anos 1980-90, à frente do Estado do Ceará, cunhou modelo de gestão ainda hoje referência e, no social, implantou programas como o Agentes Comunitários de Saúde. 

Passado, presente e futuro dos senadores cearenses
Tasso chegou ao nível biográfico de sua vida política. Atua de olho na posteridade. Foi três vezes governador. Cid vive o presente de seu poder no Ceará, que se projeta nacionalmente. Foi governador duas vezes. Girão tem os pés no presente e os olhos no futuro. Não foi governador nenhuma vez. Mas não tira isso da cabeça.

Eleições municipais, padrinhos políticos e institucionalidade

Impessoalidade é um dos princípios legais da gestão pública


Neste pleito eleitoral, em todo o Brasil – particularmente em Fortaleza -, muito se tem ouvido, falado e comentado sobre apadrinhamentos e alianças políticas. Os defensores e o próprio candidato José Sarto (PDT) não perdem a oportunidade para se associarem a Camilo Santana, o principal cabo eleitoral da Capital. Ao mesmo tempo, defenestram o candidato Capitão Wagner (Pros), por este ser identificado com o desgastado Jair Bolsonaro. O candidato do Pros, por sua vez, tenta minimizar a ligação direta que teria com o presidente da República, afirmando ter relações pessoais com o governador e que, prefeito de Fortaleza, buscaria parcerias com o Abolição.

Como se percebe, trata-se, em ambos os lados, de uma mistura gelatinosa de discurso político, ambientado numa campanha eleitoral disputada, com distorção dos papéis institucionais de Município, Estado e União. Da forma como os argumentos são colocados pelos candidatos, parece que as relações políticas de afinidade, simpatia e trato pessoal entre os dirigentes estão acima dos organismos de Estado. Que este pode ser manipulado em nome dos interesses daqueles. Claro que não é para ser assim. Prefeito de qualquer município – especialmente de uma capital -, deve ser tratado de forma isonômica, independentemente da coloração ideológica de seu grupo político.

Pelos princípios legais da administração pública
Prefeito municipal, governador de Estado e presidente da República são figuras regidas pela legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência – os velhos e bons princípios constitucionais que norteiam a administração pública. Outra questão: a legislação prevê repasses financeiros regulares entre os entes – do maior para o menor – nas mais diversas áreas de atuação das gestões. Assim foi feito, justamente, para que, entre outros pontos, processos eleitorais não ameaçassem a estabilidade e o funcionamento dos governos.

Datafolha/Fortaleza: Sarto 59% x 41% Capitão, as últimas narrativas

Candidatos do PDT e Pros: mesmos índices, reações diferentes

Quem nunca viu um candidato atrás nas pesquisas tentar desacreditá-las levante a mão.

É o esperado. O que dá para fazer.

Quem lidera controla os ânimos, contém as emoções, ameniza reações e respira fundo diante de cada tentação.

Quem está lá atrás demoniza as pesquisas, joga suspeitas sobre os números, tenta criar fatos e falar, diretamente, com o eleitor.

Políticos experientes, que já ganharam e já perderam, sabem como isso funciona.

Teremos uma semana pela frente que, para os mais exaltados, não é mais a decisiva – isso já teria sido sacramentado.

Decisivos ou não, os próximos dias serão de intenso trabalho.

Para quem lidera, tudo será feito para que a posição se mantenha. Vai se mexer para ficar no mesmo lugar.

Para quem corre o risco iminente de cruzar a linha de chegada atrás, cada voto também conta – outras jornadas virão.

Sobre linguagem, narrativas e desconstrução na política

As declarações do governador Camilo Santana, associando Capitão Wagner (Pros) ao “motim” da Polícia Militar, abriram fissuras na candidatura do Pros à Prefeitura de Fortaleza. Mas essa questão começou bem antes, ainda durante a cobertura da imprensa no episódio, no início do ano. À época, travou-se uma guerra conceitual sobre o que tinha acontecido: greve, movimento, paralisação ou… motim – este último termo acabou prevalecendo. Ou seja, o governo ganhou a narrativa contra os rebelados fardados que, como se vê, agora pode fazer toda a diferença.

A trajetória do PT nas eleições de 2020, em três capítulos
Em três vitrais, eis a via crucis do PT na sucessão de Roberto Cláudio, neste 2020: 1) tentou-se, de todas as formas, evitar Luizianne Lins candidata; 2) uma vez a ex-prefeita na corrida eleitoral, abriu-se artilharia pesada contra ela, tirando-a do segundo turno; 3) o que sobrou do PT – o lado não-luiziannista -, curvou-se ao poder do Palácio da Abolição.

Inteligência artificial: as transformações na saúde

Logo mais, a partir das 18h desta quarta/18, especialistas da área debatem o tema “Inteligência Artificial Transforma a Saúde”.

Convidados:
Marianna Ferreira, pesquisadora
Ticiana Linhares, cientista de dados
Ney Paranaguá, sócio da Maida.health
Mediação: Pery Negreiros, jornalista

Promoção: TrendsCE

Transmissão: YouTube.com/TrendsCE

Sucessão de RC: circunstâncias que podem explicar o resultado deste domingo

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta sexta/13:

Capitão Wagner (Pros), José Sarto (PDT) e Luizianne Lins (PT): um dos três sucederá o atual prefeito de Fortaleza / Divulgação

Antes de mais nada, algumas questões já postas, que muito remotamente serão contrariadas no próximo domingo (15): a sucessão do prefeito Roberto Cláudio (PDT) será em dois turnos. Os candidatos Capitão Wagner (Pros), José Sarto (PDT) e Luizianne Lins (PT) disputam as duas vagas para a segunda votação no próximo dia 29. Na cotação do dia, Capitão e Sarto irão à segunda rodada de votação. Ou isso ou todos os principais institutos de pesquisa do País, sem exceção, serão desavergonhadamente desmoralizados. Passados três meses, entre os primeiros movimentos concretos de candidaturas e o fim da atual campanha para o primeiro turno, temos a seguinte configuração: dos três prefeituráveis acima, Capitão e Luizianne acertaram muito, mas também cometeram graves erros na pré e na campanha, enquanto Sarto, mesmo com equívocos pontuais, somou muitos bônus em torno de si. Peguemos o elemento candidato a vice-prefeito, por exemplo.

Capitão: indecisão e outras barreiras cobram a fatura
Ao candidato do Pros faltou poder de decisão – foram cotados Mayra Pinheiro, Geraldo Luciano, Heitor Freire etc  -, e sobrou empáfia – desfecho que poderá, inclusive, repercutir na ausência de apoio desses personagens e seus grupos ao Capitão, na hipótese de o deputado federal ir ao segundo round. No auge da campanha, vieram as estocadas do governador Camilo Santana na suposta liderança do motim de parte das tropas da Polícia Militar e outras clássicas tentativas de desconstrução do personagem. Mesmo assim, o Capitão segurou-se, praticamente, no mesmo patamar de onde começou nas intenções de voto.

Luizianne: sem estômago e um pesado fardo para carregar
A Luizianne e seus seguidores faltaram estômago e paciência com potenciais aliados, que poderiam ter lhe rendido preciosos minutos no rádio e TV, além de mais estrutura de campanha. Para complicar um pouco mais, a petista teve de carregar, durante toda a campanha, o fardo da rejeição  – a candidata é líder no amargo quesito – em parte explicada pela natural fadiga de material, por ser ex-prefeita. Aqui há um ponto de incursão: os ataques cirúrgicos desferidos pelos governistas, o que ajuda a explicar a sangria de Luizianne nas intenções de voto fora da margem de erro.

Sarto: as convergências que fizeram o pedetista decolar
E Sarto, o que fez em relação ao candidato a vice? Simples. Seus líderes maiores acoplaram à chapa encabeçada pelo PDT o PSB de Eudoro Santana, pai de Camilo – que indicou Élcio Batista. A isso se somaram a massiva associação do nome do presidente da Assembleia Legislativa – que em si já não é pouca coisa -, a exitosa gestão Roberto Cláudio, a maior coligação partidária – com quase seis centenas de candidatos a vereador -; um latifúndio de tempo no rádio e TV e uma gigantesca estrutura de comunicação e assessoria jurídica. Muito dificilmente poderia resultar em outro desempenho, se não o que as pesquisas mostraram até aqui. Isso, apesar da valsa dançada à beira do abismo pelo grupo de Sarto, quando levou ao limite do tempo a indicação do candidato a prefeito. O pedetista poderia estar melhor posicionado.