O que já está pacificado e o que ainda será muito discutido na base governista

Governador Camilo e prefeito Sarto têm preferências diferentes por candidaturas ao Abolição / Divulgação

Praticamente toda definição de candidatura na base governista é conflituosa. Sobretudo, quando duas características estão presentes: 1) se for transição entre dois ciclos. Ou seja, na hipótese de o atual governante, na reta final do segundo mandato, não poder disputar mais quatro anos, e 2) se a gestão em questão apresentar satisfatório nível de aprovação – que poderá, não é automático -, representar vigor político e, portanto, potencial eleitoral. Dizendo de forma direta: impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo, o governador Camilo Santana (PT), bem avaliado, tem no seu entorno o desafio de gerenciar egos e interesses na escolha do candidato à sucessão.

Começando pelo mais fácil: é pacífico que o candidato governista será do PDT. Também não há ruído público, até aqui, para a saída de Camilo até o dia 2 próximo, para disputar o Senado. Um degrau acima, em ordem de complicação, há as articulações para a escolha do nome a vice. Não há nada decidido. Mas é na discussão sobre a cabeça de chapa que promete. Há quatro pré-candidatos – a hoje vice e possível governadora Izolda Cela, o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, o deputado federal Mauro Filho e o presidente da Assembleia Legislativa, Evandro Leitão. Todos querem, têm perfil para isso e contam com padrinhos fortes. Serão longos dias, semanas e meses. Tudo pode acontecer.

Roberto Cláudio e Izolda Cela
Como dito e já sabido, todos os integrantes do quarteto pedetista têm chances de saírem candidatos. Mas salta aos olhos a dianteira do ex-prefeito da Capital e da hoje vice. Ontem, por exemplo, Roberto Cláudio reuniu 32 vereadores de Fortaleza, inclusive o presidente da CMFor, Antônio Henrique, em palestra. O evento acontece ainda sob a repercussão da declaração do prefeito José Sarto, de que o melhor nome para a disputa de outubro seria a do antecessor no Paço Municipal. Na outra ponta, Izolda Cela é, cada vez mais, apresentada, ciceroneada e tratada como governadora. A conferir o que, efetivamente, acontecerá.

Os sinais trocados na disputa pelos palácios do Planalto e da Abolição

Palácio da Abolição, a sede do Governo do Estado do Ceará / Divulgação

A relação direta entre política e economia existe desde que o mundo é mundo. No Brasil, onde tudo parece mais enroscado e surreal, não é diferente – muito menos pelo contrário. Olhemos para o plano nacional. Temos o presidente Jair Bolsonaro (PL) sentado em cima de quase 60% de tudo que é arrecadado, caneta na mão e Diário Oficial em cima da mesa. Mesmo assim, está às vias de entrar para a história como o primeiro inquilino do Palácio do Planalto que não conseguiu se reeleger. Lembremos que até Dilma Rousseff conseguiu. Corta para o Ceará, onde o governador, Camilo Santana (PT), sete anos depois de assumir o governo, é a principal liderança do Estado.

De forma científica, empírica ou por qualquer outro parâmetro, é insofismável que, independentemente de outros quadrantes, é a economia a maior base de aprovação da gestão estadual. Na mesma dimensão, é o cenário econômico, presente e futuro, que coloca o governo federal numa das piores performances de opinião pública às vésperas de um ano eleitoral. No Ceará tem planejamento, rigor fiscal, PIB crescente e dinheiro em caixa para investir. Lá, a inépcia deu lugar à governança, o governo opera no vermelho, o PIB patina e não há investimento. Tudo isso, mais carestia, inflação e juros altos, que ricos, pobres e remediados debitam na conta de Bolsonaro.

Quem vai unir PT-PDT no Ceará?

Manter a aliança é um dos principais desafios dos governistas / Reprodução


Quando quase tudo parecia encaminhado – o candidato governista sairia do PDT e Camilo Santana (PT) disputaria o Senado – eis que foi retomado com força o debate interno no PT sobre candidatura própria ao Governo do Estado. Por que isso pode ser um divisor em todo o tabuleiro de 2022 no Estado? Simples. Para bater o martelo sobre o candidato ao Executivo, a cúpula do grupo abrigado no Abolição terá de considerar a capacidade do ungido em manter o PT de Lula na base do PDT de Ciro Gomes. Anote: quem tiver esse perfil poderá ser a cabeça de chapa do condomínio.

O Ceará no tabuleiro de 2022

Palácio da Abolição: sede do Governo do Ceará – sonho de consumo dos políticos cearenses / Ascom/GE

A primeira questão a se considerar na sucessão eleitoral de 2022 no Ceará é o fato de o Estado ser um quadrado sui generis do tabuleiro nacional. Aqui é terra de Ciro Gomes (PDT), pré-presidenciável que melhor pontua na chamada terceira via e que tem uma relação peculiar com o Estado que já governou – muito mais do que o presidente Bolsonaro em relação ao Rio de Janeiro ou o ex-presidente Lula para com São Paulo – seus respectivos berços políticos. Ganhar, de preferência dando uma boa dianteira nos adversários – ou passar sufoco nas urnas – terá um valor simbólico forte para o cirismo, com desdobramentos que podem apontar para cima ou para baixo.

Daí porque as conversas para a definição da candidatura governista irão muito além da sucessão em si do governador Camilo Santana (PT). Envolvem muitas interlocuções nacionais e locais, que passam pelas cúpulas dos grupos e os próprios personagens. É o que explica, por exemplo, Lula ter interesse direto no Ceará – lá atrás chegou a sugerir que Camilo poderia disputar o Planalto -, e o movimento autorizado da pré-candidatura do deputado José Airton Cirilo (PT) ao Abolição. A propósito do terreno movediço nas relações PDT-PT, destaque-se José Guimarães, o habilidoso dirigente nacional, hoje principal ponte entre Camilo e o PT nacional.

Quem dará as cartas no governismo?
Por quem passarão as principais decisões que formarão os palanques – inclusive a quantidade de coligações -, na sucessão do governador Camilo? Do lado governista, o próprio, Ciro e o senador, em primeira linha. Depois do trio, Domingos Filho (PSD), Zezinho Albuquerque (PP) e Guimarães (PT). Em seguida, aparecem, nesse ordem, Izolda Cela, Evandro Leitão e Roberto Cláudio, além de Mauro Filho – os governamentáveis pedetistas. Todos eles, com mais alguns nomes, menos expressivos, com muito entra e sai da sala, café, telefonemas, cálculos e jogo de compensação.

Enfim, TSE foi da retórica à ação
Merece registro a reação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por ameaças ao processo eleitoral e, por extensão, à democracia. É o mínimo que se espera da cúpula e guardiã da organização e fiscalização dos pleitos. Vale dizer, inclusive, que o TSE deveria ter agido bem antes. Também na política, a primeira concessão é a pior de todas.

OAB e Disposições Transitórias
Com o mote “Reforma Sindical e PEC 196: solução ou retrocesso?”, a OAB-CE debate, conforme está na ementa da proposta, em Brasília, a Emenda à Constituição que “cria o Conselho Nacional de Organização Sindical (CNOS), com participação paritária de trabalhadores e de empregadores”. Evento puxado pela Comissão de Direito Sindical da Ordem. Nesta quarta/4, às 19h, no Youtube.