Como se movimentam os personagens no teatro da crise

Presidente Bolsonaro perdeu aderência em várias frentes/Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Mais da coluna Erivaldo Carvalho desta segunda/9:
Ato 1: parte da classe média antipetista, aos poucos, desembarcou do governo Bolsonaro, lá atrás, na medida em que o presidente colocava os pés pelas mãos. Ato 2: o Supremo Tribunal Federal, depois de reações baba de nenê, resolveu agir à altura, subir o tom e passar um risco no chão. Ato 3: setores consideráveis do PIB nacional, que outrora escondia-se atrás do berço esplêndido, também resolveu se pronunciar. Crise não faz bem aos negócios. Ato 4: cada vez mais isolado na própria bolha, o mandatário segue testando limites, dia pós dia. Aguardemos as próximas cenas.

Bolsonaro, centrão e o ser ou não ser
O poderoso ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, abraçou para si e para os seus a missão de gerenciar o governo Bolsonaro. Como poucos de sua geração, saberá tirar proveito, colhendo os bônus e minimizando os ônus – particularmente nesse momento tenso e desgastante. O presidente já disse que é centrão desde criancinha. Mas o centrão, na cotação do dia, não é bolsonarista.

Senador Omar Aziz passa do ponto
Presidente da mais histórica CPI do Parlamento brasileiro, o senador amazonense Omar Aziz (PSD), vez por outra, passa do ponto. Cada vez mais trava o andamento dos trabalhos para falar de seu colégio eleitoral ou debulhar sermões e frases de efeito. Sem falar nas iscas governistas que morde com facilidade. Ele tratora bem, quando se faz necessário. Deveria ir somente até aí.

Notas sobre Tasso Jereissati

Senador em segundo mandato, tucano é cotado para disputa nacional

Em seu segundo mandato de senador da República, o três vezes governador do Estado, Tasso Ribeiro Jereissati, 72, entrou para os livros de história pelas portas da frente: esteve no lugar certo, no momento certo e fez a coisa certa; administrador de empresas, buscou, na gestão pública, sempre que possível, parametrizá-la com modelos de negócios privados: foco em planejamento, busca de resultados, ousadia em projetos, visão de longo alcance e perpetuação. Hoje, trinta e cinco anos depois do longínquo 1986, o modelo implantado no Ceará é aplaudido Brasil afora. Mais do que isso, foi o alicerce que possibilitou ao Ceará projetar-se para o mundo.

Mas nem sempre foi assim. O início foi muito difícil e desafiador. O primeiro choque de gestão de Tasso na máquina estadual, que exorcizou milhares de funcionários fantasmas e eliminou privilégios, foi como mexer em vespeiro. O jovem governador perdeu popularidade numa rapidez fulminante; virou inimigo número um do funcionalismo público – particularmente, em Fortaleza – e viu a base aliada minguar na Assembleia Legislativa. Aos poucos, com persistência, foi virando o jogo na gestão e na opinião pública cearense – tanto que fez o sucessor, Ciro Gomes, e depois foi eleito outras duas vezes – sempre com coerência, austeridade e princípios.

Senado fez bem à cabeça de Tasso
Em 2002, quando Tasso foi eleito senador pela primeira vez, o Ceará ficou diante de uma grande interrogação: como seria o mandato de um político de biografia já histórica, ex-chefe do Executivo com fama de atuação rígida e autossuficiente em termos eleitorais? Para a surpresa da grande maioria, o então debutante senador surpreendeu a todos – mais uma vez. O exercício do contraditório, próprio da gênese dos legislativos, fez muito bem não somente à cabeça do hoje veterano parlamentar: projetou-o como reserva política da República.

Imagem com potencial para agregar
Conforme lembrou o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo (PE), a imagem política de Tasso transcende o ninho tucano. É voz ouvida dentro e fora do Senado. Isso o credenciaria, em termos de aderência de outras forças políticas, a entrar na disputa pela Presidência da República. Inclusive pelo potencial de atrair outros nomes de peso do cenário nacional, a exemplo de Ciro.

Tucano não tem do que reclamar
Entrando na reta final de mais um mandato, Tasso tem emitido sinais de que deseja voltar a Brasília em 2023 – a depender do desenho do palanque governista no Ceará. Mas, até aqui, o tucano não tem do que reclamar. Não é todo dia que um político que só pretende renovar o mandato toma tanto banho de mídia – local, nacional e internacional -, de forma espontânea e alvissareira.