O Twitter de Musk

O multibilionário comprou a plataforma por US$ 44 bilhões / Divulgação


O microblog Twitter não tardará a apresentar novas experiências e usabilidades, com o mínimo de mediação de inteligência artificial. Foi o mais ou menos anunciado pelo comando da plataforma planetária, o mais novo brinquedinho digital do multibilionário Elon Musk. Eis um dos maiores testes deste animado ano para a Justiça Eleitoral brasileira. Só para lembrar: o presidente Bolsonaro já teve tuíte deletado, em polêmica envolvendo tratamento de covid-19.

Storytelling: candidato “gente como a gente”

Contar boas histórias em campanhas pode fazer a diferença / Reprodução

Queiramos ou não, campanhas eleitorais são baseadas na emoção, embora elaboradas em laboratórios, com planejamento, testes e técnicas, sob os auspícios de especialistas. Ou seja, no final das contas, com as exceções de praxe, buscar voto é algo racional. E, basicamente, isso se dá em cima de dois pontos: bandeiras e pessoas. A grande maioria dos candidatos se encaixa em um desses dois perfis. Mas é a forma como os personagens ou os temas são apresentados que separa a minoria vitoriosa da multidão de derrotados. Nesse ponto, uma das estratégias mais conhecidas pelos marketólogos é o storytelling, que como o próprio nome entrega, é uma história a ser contada.

E o que é vender uma boa história? Simples. É como a imagem e reputação do candidato precisam chegar ao eleitor. Muito de preferência, de forma simples, leve e humanizada. Ele ou ela vai falar de sua infância, família, que decisões importantes que teve na vida escolar e profissional e – o mais importante -, por que está entrando na vida pública – caso seja debutante. É óbvio que, nesse ponto, palavras como “vocação”, “missão” e “espírito público” – a tal empatia -, devem frequentar a fala do pretendente, em primeira pessoa, com fundo musical quase romântico e ângulos e enquadramentos igualmente emotivos. Pronto. Está preparada a receita para deixar qualquer um “gente como a gente”.

Bandeira em defesa dos mais frágeis não tem cor partidária

Caso Enel/provedores uniu parlamentares de diferentes grupos políticos / Reprodução

Já disseram quase tudo sobre o que é e para que serve a política. Aí vai mais uma: presta-se a tentar equilibrar forças econômicas e outras dinâmicas que atuam no cotidiano. Ainda mais em ano eleitoral. Vejamos o caso Enel/provedores de internet. Nos últimos dias, houve intensa mobilização de parlamentares contra a polêmica tentativa de cobrança de tarifa pelo uso compartilhado dos postes de energia. O valor poderia chegar a até R$ 75,00 por ponto – o que acarretaria, num efeito cascata ladeira abaixo, até 70% de reajuste no valor do plano. Pois bem. Depois de muita grita, no Ceará e Brasília, a empresa recuou e uma comissão foi criada, para debater o tema e encaminhar soluções.

Um dos parlamentares que se mobilizaram, o deputado federal Danilo Forte (PSDB) comemorou a suspensão da cobrança. Para ele, a taxa anunciada pela distribuidora seria uma sentença de morte para diversos provedores pequenos, que atuam em locais pelos quais as grandes operadoras não se interessam. “Isso criaria um deserto digital, com regiões sem acesso à internet e, consequentemente, sem acesso à educação, à cultura, ao lazer e aos negócios”, disse o tucano. O também deputado federal Eduardo Bismarck (PDT) saiu em defesa dos empreendedores digitais no Ceará, assim como o deputado estadual Acrísio Sena (PT), na Assembleia Legislativa. Notem que Danilo, Eduardo e Acrísio são de grupos políticos diferentes. Mas a causa foi comum aos três.

Sobre política e inimigos poderosos

Shimon Hayut se passa por Simon Leviev, sedutor herdeiro de um pequeno império / Montagem sobre reprodução

Há situações na vida que lembram o famoso Simon Leviev (na verdade, Shimon Hayut) – personagem central do documentário top 10 da Netflix em 94 países, com mais de 64 milhões de horas de visualização. Herdeiro de um pequeno império, Simon é o sonho materializado de milhões de pessoas: sedutor, exala cheiro de atenção e sensibilidade. Bom de papo e outras coisas, é surpreendentemente bom no que faz. Tem muito dinheiro e prestígio, que faz questão de ostentar em grifes poderosas, champagnes caríssimas, festas exclusivas e jatinhos executivos em rasantes pelos locais mais badalados. Estar ao lado dele é estar no topo do mundo. Peça o que quiser.

Mas, tudo isso, dura somente enquanto Simon não consegue pegar o que veio buscar – ou a vítima não se dá conta, susto após susto, de que ele é um vigarista. Ainda assim, como num labiríntico jogo de gato e rato, o agora farsante consegue se safar, graças à casa de cartas, que sempre dá acesso a outros telhados. Enquanto isso, uma rede de mentiras, que envolve ciladas financeiras, cede lugar à antes comunicação perfeita. Em defesa, ele nega tudo e diz, no máximo, que está sendo perseguido por inimigos poderosos – e que precisa de mais ajuda. A vítima, enfim, descobre, da pior forma, que quase não há mais o que fazer. E aí, qual seu “golpista do Tinder” neste ano eleitoral?

Em tempos de infodemia

Da coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta quarta/5:

Justiça Eleitoral e imprensa serão desafiadas neste 2022 / Julieta Ulanovsky/freepik

Este escriba é do tempo em que, nos bancos de faculdade, paraninfos professores de jornalismo, do alto de sua sapiência, construída com livros e experiências profissionais, cravavam a seguinte frase de efeito: “Todo fato tem pelo menos três versões: a minha, a sua e a verdade”. Corta para 2022. Vivemos a era da pós-verdade, verdades subjetivas e narrativas alternativas à realidade. Em meio a fronteiras borradas e preso em sua bolha, cada personagem passou a criar, ao bel interesse, modelos de opinião, nos quais “fatos objetivos” – acredite, hoje em dia, a expressão não é redundante -, tem menos influência do que os apelos a condicionamentos pessoais e emocionais.

São graves os riscos e desafios implicados à modernidade. Cite-se a pandemia de covid-19. Mais do que polêmica, a mistura ensandecida está, no limite, custando vidas humanas. O ano eleitoral chegou, já construindo seus heróis e vilões, menos à base de debates civilizados e consistentes do que às custas de fake news, inverdades e meias verdades. Geralmente, disputas políticas em nações civilizadas funcionam assim: a Justiça Eleitoral organiza o pleito e a imprensa narra o jogo. Essa não será tarefa fácil nem para uma nem para a outra. Navegar em mares turbulentos, dominados pela desinformação, é um dos desafios do ano. O fenômeno já tem até nome: infodemia.

2022 e o planejamento estratégico das campanhas eleitorais

Na política, quem planeja tem futuro; quem não planeja tem destino / Reprodução

Cada vez mais profissionalizadas, campanhas eleitorais dependem, na mesma proporção, de planejamento, com períodos muito bem definidos, nos quais estão determinados os resultados previstos e as metas a bater. Ter ou não essa estrutura é mais ou menos a diferença entre ter futuro ou destino. Com a chegada do ano eleitoral, é hora de revisar o que já foi feito até aqui, repassar o check list do que vem nas próximas semanas e, principalmente, renovar a disposição física. Tais premissas valem, sobretudo, para a corrida a deputado federal, estadual e a majoritária da oposição. Isso porque a eleição de quem está no Executivo funciona sob outra lógica. Sabemos disso.

Na média geral entre estrategistas políticos, é pacífica a ideia de que uma campanha, com razoável potencial, assenta-se no tripé político, jurídico e comunicacional. Rapidamente: o primeiro item, por óbvio, diz respeito ao partido e suas variáveis, em termos de tamanho, capilaridade, reputação, negociações, acordos e demais nomes que entrarão na briga eleitoral. Muitos tentarão chegar lá, mas o máximo que conseguirão será amealhar votos para correligionários mais votados. O lado jurídico vai da situação formal do partido, junto à Justiça Eleitoral, aos aspectos da candidatura, propriamente, assim como a eventuais embates com adversários – dentro e fora da sigla.

O peso da comunicação
Comunicação de campanhas eleitorais é um caso à parte. Não é fácil construir, melhorar e massificar perfis políticos. Quando jovens, a maioria dos candidatos pensa que um celular à mão é o suficiente para acessar o eleitorado e converter votos. Já os experimentados costumam confiar mais no empirismo do que no profissionalismo. Em todo o caso, importa pouco se a equipe tem traquejo político e bons advogados eleitorais. Sem a retaguarda da comunicação, não chegará muito longe.

A peculiar relação do PT e Lula com o Ministério Público, imprensa e TCU

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta segunda/11:

O ex-presidente da República, durante discurso para militância / Ricardo Stuckert/IL

O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) é autor do texto original da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia os poderes do Congresso Nacional sobre o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). O novo desenho institucional ameaça desfigurar o Ministério Público como o conhecemos. O caça às bruxas remonta à Operação Lava Jato e outras investigações cabeludas. Polêmica, a matéria está travada na Câmara dos Deputados.

Noutra frente, o ex-presidente Lula, há algumas semanas, fez uma série de desabafos sobre a imprensa e relação da cobertura com o governo da sucessora Dilma Rousseff (PT). Em síntese, o petista questionou porque a gestão da companheira não tinha avançado na ideia do conselho de comunicação social. A iniciativa suscitaria mecanismos de controle dos meios. Para os mais críticos, significaria censura. Sem consenso no PT e percebendo o ato falho, Lula jogou o debate para o Legislativo.

Durante o período em que esteve presidente da República, Lula fez vários discursos contra a atuação do Tribunal de Contas da União (TCU). Em 2010, com a “mãe do PAC” às voltas com 32 obras federais paradas por indícios de irregularidade, o então mandatário chegou a defender “revisão no trabalho de fiscalização do TCU”. Da série recordar é viver.

O mundo das big techs

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta quarta/6:

Redes sociais detêm maior fluxo de informações do planeta / Divulgação

Além do WhatsApp e Instagram, o conglomerado encabeçado pelo Facebook inclui a Beat Games (realidade virtual), Diem (criptomoeda) e Onavo (análise de fluxo online), entre muitas outras estruturas. Simulações apontam que o público planetário circulante nestas plataformas supera os quase 8 bilhões de terráqueos. E que a quantidade de informações – pessoais, corporativas e institucionais – captadas, nem sempre, de forma clara – e armazenadas em seus servidores supera o volume de dados atualmente em poder do seleto clube da espionagem mundial.

Estamos falando de CIA e NSA (Estados Unidos), FSB (antiga KGB, Rússia), MSS (China), Stasi (Alemanha), Mossad (Israel), MI5 e MI6 (Reino Unido) e DPSD (França). A maioria destas nações também figura na lista dos maiores PIBs mundiais, compõe o clube nuclear e tem assento no Conselho de Segurança da ONU. Ou seja, trata-se de quem dá as cartas ao redor do mundo, decidindo sobre guerras, vidas e comportamentos.

Pelo menos era assim há até duas décadas, quando as atuais big techs – além do Face, o top five inclui Microsoft, Amazon, Apple e Google -, ainda eram linhas indecifráveis de programação de computador, que desafiavam sonhos de adolescentes com espinha em dormitórios de Harvard.

No limite, a democracia está em jogo
Entre necessidade e vício, o mundo travou, na última segunda-feira (4), com o apagão tecnológico do Facebook e subsidiárias. A pane global foi proporcional à importância com que cada um sentiu a ausência das redes e mensageiro, em praticamente todos os quadrantes do cotidiano. Monopólios, de forma generalizada, são sempre temerosos. Em se tratando de comunicação e informação, passam a representar perigos reais à coletividade, já que podem passar a controlar, censurar ou mesmo definir a forma de pensar de milhões de pessoas. No limite, é um risco à democracia.

Fake news: qual o equilíbrio entre controle e liberdade?

Há um consenso de que, na média geral, abrimos mão de nossa privacidade em nome da segurança. O mundo big brother no qual vivemos que o diga. A mesma lógica pode ser utilizada na comunicação?

Sendo mais específico: no debate sobre fake news, como será e qual o limite do controle? Que preço estamos dispostos a pagar para seguirmos na trilha do razoável, sem violar direitos e criminalizar usuários?

Tramita, no Congresso Nacional, o chamado PL das Fake News. Segue a síntese do que está sendo proposto:

Obrigatoriedade de transparência das plataformas, com produção de relatórios trimestrais;

– Identificação de conteúdo patrocinado e de contas automatizadas;

– Notificação do usuário na abertura de processos de análise de conteúdo e de contas violadoras dos padrões de uso;

– Rotulação de bots (aplicações de programa de computador que simulam ações humanas);

Restrições ao uso e comercialização de ferramentas externas voltadas ao disparo em massa de mensagens;

Publicidade em relação aos anúncios e conteúdos impulsionados por órgãos públicos.

Mais de trinta empresas e entidades, entre elas Facebook, Google, Twitter, WhatsApp, agência Aos Fatos e Transparência Brasil, se uniram no início de junho para pedir o adiamento da votação.

As entidades, que possuem interesses divergentes em torno da matéria, consideraram que a análise está ocorrendo de modo precipitado e coloca em risco a liberdade de expressão online.

No limite e na prática, o feixe de restrições permitiria a identificação em massa dos usuários, com a consequente possibilidade de criminalizá-los.

O clima no Congresso Nacional, a começar pelos presidentes das duas casas, é de aprovação da legislação o mais rapidamente possível.

Uma das leituras para a pressa é o fato de que parlamentares – alguns vítimas, outros envolvidos na proliferação de fake news -, estariam preocupados com o processo eleitoral que se aproxima.

Com informações do Congresso em Foco. Íntegra do conteúdo aqui.

O bom jornalismo e o ovo da serpente

Teria o jornalismo deixado de ser social e investigativo?

Uma vez ouvi uma explicação bem peculiar para a expressão “mídia social”.

Era para fazer frente, dizia o interlocutor – entre um tom professoral e uma pose jocosa -, ao jornalismo convencional.

Segundo o mestre observador, há tempos o jornalismo teria deixado de perceber os interesses da sociedade como palco e pano de fundo.

De fato, com redução de aderência ao social – entre outros gargalos -, o jornalismo viu a “mídia social” ocupar o espaço.

Quase que paralelamente, veio o “jornalismo investigativo”. Para investigar, segundo a mesma lógica da “mídia social”.

Faz certo sentido. Se um dia ficarmos sem assessorias de imprensa, deixaremos de ter o que ler, ouvir e assistir em muitos veículos – pequenos, médios e grandes.

Sem drama. Sabemos que quanto mais releases, menos jornalismo. Aqui meu apreço a quem olha o apoio de assessores como ponto de partida e não como ponto de chegada.

Resumindo até aqui: com uma cobertura sofrível, o ex-bom jornalismo, que já padecia da ausência do “social” também teria deixado de ser “investigativo”.

Agora, o mundo se debruça sobre as famigeradas fake news.

Uma provocação: não teria sido a transformação para pior, do jornalismo de outrora no atual, o ovo da serpente que desafia governos, instituições e a própria democracia?

Haveria espaço para o acachapante fenômeno das fake news se, atualmente, existisse jornalismo – sem segunda palavra ou aspas -, relevante, consistente e com credibilidade, a que o jocoso professor se referiu?