Copa América, Yamaguchi, Luana, pronunciamento e Pazuello

A médica, que depôs no último dia 2, foi um dos pontos altos da semana / LEOPOLDO SILVA/AGÊNCIA SENADO

A semana, embora com feriado, de curta não teve nada. Principalmente, na política, onde vai chegando ao fim com fortes emoções. Já no primeiro dia útil, ainda sob o calor dos protestos do final de semana contra o governo do presidente Bolsonaro, o país da covid foi balançado com a notícia de que sediaria a Copa América de Futebol. Por questões óbvias, “inacreditável” foi um dos termos mais lidos e ouvidos. Não pelo esporte mais popular do mundo e do Brasil, mas por uma gritante questão de saúde pública, colocada em segundo plano. Veio terça-feira e, com ela, a bolsonarista Nise Yamaguchi, na CPI da Covid. Dispensa comentários.

Na quarta-feira, Luana Araújo, na mesma CPI, jantou o obscurantismo bolsonariano. Educada, mas firme, de forma técnica e didática, ao mesmo tempo, a mineira desmontou o lego governista, peça por peça. Com lucidez e objetividade sem precedentes na comissão, só faltou desenhar para os senadores e os milhões de brasileiros que acompanharam o depoimento-palestra. Na noite da mesma quarta ainda teríamos o pronunciamento do presidente, numa mistura de desfaçatez e reação à batata assada. Pula para esta quinta-feira (3), em que o Exército, sob pressão do presidente da República, decide não punir Eduardo Pazuello por ato político no Rio.

Para não jogar no campo do adversário
O alto comando do condomínio governista que dá as cartas na política do Ceará só deverá começar a se movimentar, efetivamente, no segundo trimestre do ano que vem. A não ser que o alinhamento partidário nacional precipite a montagem de palanques locais. Mas, não é esse o cronograma oficial esperado. Quem está no poder sempre tentará, de preferência, impor o próprio calendário. O contrário é, literalmente, entrar no jogo jogando no campo do adversário – um começo reativo complicador. Meu governo, minhas regras, no meu tempo. Simples assim.

Os rumos da sucessão de Camilo Santana
Pela lógica do revezamento, o PDT, maior partido dentro do grupo cirista, deverá lançar o sucessor do governador petista Camilo Santana. Ao atual chefe do Executivo caberá a vaga de senador. A tese é defendida pelo presidente pedetista no Ceará, deputado federal André Figueiredo. O desenho deixa de fora o senador em reta final de mandato, Tasso Jereissati (PSDB).

Sobre apoio de prefeitos a deputados
Prefeitos de municípios de médio porte para cima deveriam ser mais criteriosos para com seus candidatos a deputado estadual e federal. Assediados, costumam fazer palanque para mais de um postulante. No final das contas, pulverizam o apoio eleitoral, fragilizando-se, politicamente, diante de seus representantes nos parlamentos. A gestão sofre e ele não pode reclamar.

O bolsonarismo como esfinge


A cada pesquisa de intenção de voto para o Planalto, no ano que vem, lá está o presidente Jair Bolsonaro garantido num projetado segundo turno da disputa. O cenário é admitido até pelos adversários mais radicais. O que quase não se debate, publicamente, é por quê. O incômodo é disfarçado pelo argumento de que o mandatário tem a caneta do poder. Mas a esferográfica institucional não existia até janeiro de 2019. Como o então deputado federal – já qualificado nos autos – chegou ao poder? Por que o presidente passou de um homem substantivo a mito, com meia dúzia de advérbios e adjetivos como extensão? Por óbvio, a resposta não é curta nem simples.

Há muitas teorias, teses e explicações. Na média geral, o bolsonarismo é um sinal dos tempos. É um modelo a la brasileira da sociedade líquida, do que tanto se fala nos papos cabeça mundo afora. É fruto ou sintoma da pós-verdade, com suas explicações subjetivas da realidade alternativa. Mas não é um universo paralelo qualquer. Esse conjunto de crendices tem método. Não é uma pajelança tribal que se desfaz com a próxima hashtag que viralizar. Desvendar essa alquimia é o desafio da centro-esquerda. É a grande esfinge do momento. Vejamos os bolsonaristas na CPI da Covid, com seus ideólogos ou replicadores. A propósito: quem disse que a ciência é desprovida de ideologia?

AL-CE: retorno esperado e mais do que justo
A Assembleia Legislativa do Ceará foi a primeira do Brasil a montar o sistema de funcionamento de sessões e votações remotas, quando veio o agravamento da primeira onda da pandemia de covid-19. No auge da crise sanitária, tudo foi suspenso. Agora, aos poucos, os serviços ofertados pela Casa voltarão ao normal. O anúncio, feito pela direção do Poder, à frente, o presidente Evandro Leitão (PDT), acontece quando o Estado alcança o primeiro lugar no Nordeste em percentual de população vacinada com duas doses. Além de justo, é digno de comemoração.

Desde os tempos de Brizola
Quando o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, sugeriu que as urnas eletrônicas deveriam ter comprovante impresso, leu-se que seria uma sinalização para beneficiar o pré-candidato Ciro Gomes. O presidente do partido no Ceará, deputado federal André Figueiredo, lembra que o método de segurança é defendido pela legenda desde a época de Leonel Brizola.

Um movimento, dois efeitos
O autolançamento do deputado federal Capitão Wagner(Pros) à sucessão de Camilo Santana  (PT) é a ocupação de um vácuo deixado pelo senador Eduardo Girão (Podemos), que vem rendendo abaixo do esperado na CPI da Covid. O movimento de Wagner também pode ser visto como um antídoto às aspirações de Mayra Pinheiro, em viés de alta no bolsonarismo.

As lições de 2018 e a suposta polarização em 2022


Em 2018, há menos de um ano das eleições presidenciais, era muito pouco provável que se projetasse a eleição de um então deputado federal obscuro, abaixo do baixo clero, para presidente da República. A cobertura especializada e os institutos de pesquisas sequer levavam a ideia a sério. As principais forças políticas que almejavam o Palácio do Planalto, idem. Num partido nanico, sem dinheiro e pouco conhecido do grande público, Bolsonaro existia. Não o bolsonarismo. Somente meses antes do pleito, com a formação de uma tempestade com uma série de variáveis, acidentes e circunstâncias – prováveis e improváveis -, a onda veio. O resto da história todos conhecem.

A síntese acima é para dizer que no Brasil em que eleitores “indecisos”, “brancos” e “nulos”, somados, formam o bloco que lidera a corrida eleitoral durante a maior parte da campanha, beira a irracionalidade – ou esperteza política -, carimbar que a polarização é algo líquido, certo e irreversível para a disputa de 2022. Quem está no núcleo ou órbita de um desses pólos tem interesse que o cenário assim permaneça. E sempre estará pronto para combater a tese da terceira via. Em paralelo, passa a contar os meses e semanas para o dia da eleição. Mas isso configura um grande risco. No mar da política, ora calmo ora agitado, às vezes velejar não depende somente dos ventos.

No Ceará, poderá haver até quatro palanques competitivos
Independentemente de quantas candidaturas musculosas nacionais tenhamos em 2022, as atuais circunstâncias políticas no Estado do Ceará projetam até quatro vias eleitorais consistentes. Duas com representantes dos grupos melhor posicionados, na cotação do dia: lulismo e bolsonarismo. A terceira fará palanque para Ciro Gomes (PDT). A quarta poderá sair da costela do bolsonarismo, caso o nome hoje mais cotado, a preço de hoje o deputado federal Capitão Wagner (Pros), não assuma o ônus e o bônus de ser o “candidato do Bolsonaro” no Ceará.

A briga chega aos estados
No último comentário neste espaço a respeito da CPI da Covid, foi destacada a pressão sobre o Senado, que atua sob decisões do STF. Agora, 18 governadores foram à corte suprema do Judiciário brasileiro contra as convocações dos próprios. Há precedentes, inclusive mencionados aqui, de que o Supremo deverá vetar os requerimentos da comissão – nove deles já aprovados.

Um mistura muito perigosa
Lá atrás, os mais sensatos já previam que a mistura de judicialização da política com ativismo judicial poderia não terminar bem para o País. É muito provável que daí venha parte da animosidade do jogo, que cada vez mais corre o risco de deixar de ser democrático. A tensão nacional, e agora regional, com eleições no horizonte e uma CPI bombando, vai elevar muito a temperatura.

Judicializada, CPI da Covid precisa apresentar resultados concretos

Sede da cúpula do Judiciário brasileiro, de onde tem saído as principais decisões sobre a CPI da Covid / DIVULGAÇÃO


Ato 1: o STF manda o Senado instalar a CPI que investiga ações, omissões e responsabilidades de governos no manejo da pandemia de covid-19; ato 2: a corte suprema do Judiciário brasileiro deu a depoentes o direito a ficarem calados; ato 3: está escrito nas estrelas que os ministros togados dirão que governadores não se submetem a CPIs do Congresso Nacional; ato 4, também no script: independentemente do relatório – ou relatórios, já que deve haver o oficial e o “paralelo” -, os resultados do inquérito parlamentar irão às barras do tribunal. Ou seja, o Senado, a mais ilustre casa política nacional, segue sob pressão de decisões que lhe dizem o que e como fazer. 

São as regras da institucionalidade, pelas quais se estabelece os limites das próprias condições do jogo democrático que está sendo jogado. Perfeito. Mas o enquadramento do Senado da República da forma como vem sendo feito pelo Supremo é mais do que isso. Significa que o colegiado onde, em tese, coexistem os personagens públicos mais experimentados da nação, há muito perdeu a capacidade de construir as próprias saídas para impasses e conflitos. A CPI da Covid, portanto, precisa ter consequências e desdobramentos práticos e objetivos, sob pena de haver desgaste para a instituição, beirando a desmoralização, antes, durante e depois.

Bola quicou de volta para opositores
A terceira semana de oitivas na CPI da Covid fecha com o grupo majoritariamente antibolsonarista em viés de alta. Presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas devolveu a bola aos opositores e independentes, ao dissecar o cronograma de negativas e desavenças do Ministério da Saúde, no segundo semestre de 2020, diante de ofertas da vacina Coronavac, pela China. Ancorado em provas, Dimas foi técnico, seguro e tranquilo. Segundo ele, a atitude do governo brasileiro acarretou atraso na produção do imunizante. Grosso modo, isso pode ter significado muitas vidas.

A volta, aos poucos, do normal
O retorno, gradativo, dos serviços públicos prestados pela Assembleia Legislativa à população cearense mostra, para além do amparo aos que dos benefícios necessitam, a busca da reconexão da Casa com a sociedade. Marcada para o início de junho, a retomada também é um esforço simbólico e inspirador de que a vida, aos poucos, está – e precisa -, voltar ao normal.

Qualidade não tem idade
Ascensão na vida pública, de forma linear e contínua, é para poucos. E não há idade certa para isso. O novo e o tradicional podem exibir as mesmas qualidades. E, às vezes, até dividir o mesmo espaço e mesa. São os casos do presidente da Assembleia Legislativa, Evandro Leitão, no segundo mandato, e do primeiro-secretário da Casa, Antônio Granja, indo para o sétimo.

CPI da Covid: nem tão fácil para um lado nem tão difícil para o outro


É fato que governo algum dorme tranquilo sabendo que um canhão chamado Comissão Parlamentar de Inquérito está apontado para si. O temor está, inclusive, entre as explicações para o clichê “Sabe-se como uma CPI começa, mas não se sabe como termina”. Na terceira semana de CPI da Covid, no Senado, que investiga ações e omissões dos governos federal, estaduais e municipais, o debate está em aberto. Oposicionistas emitem sinais de que criminalizar o Palácio do Planalto pelas centenas de milhares de mortes não será tão fácil, e os governistas estão começando a acreditar que defendê-lo não será tão difícil. Vide o general Eduardo Pazuello e a médica Mayra Pinheiro.

Nesta quarta começa a segunda fase da CPI. Há mais de 400 requerimentos com a presidência da comissão, entre requisição de documentos, pedidos para quebra de sigilos, solicitação da presença de dirigentes de mais órgãos e depoimentos de governadores e prefeitos. Estes dois últimos grupos formam o núcleo de ampliação do escopo da investigação. É nessa linha na qual os governistas tentarão encurralar os adversários. Isso porque, em tese, os senadores adotarão o roteiro do follow the money, adentrando nos detalhes de como recursos federais foram e estão sendo gastos no combate à pandemia pelo novo coronavírus. Isso, em tese. Não será uma batalha fácil.

O primeiro grande teste do G7
Lá no início, apelidou-se de G7 um subgrupo da CPI da Covid formado por senadores de oposição ou independentes. Pois bem. Vem aí a votação para convocação de governadores e prefeitos que, em sua maioria, mantêm ligações políticas com os integrantes da comissão. Haverá muita pressão. No pano de fundo, há um dilema entre blindar aliados e convocar adversários. Nos dois casos, o desfecho pode ser imprevisível, inclusive para a reputação da própria CPI, caso haja algum “combinemos”, em que ninguém investiga ninguém – ou o já famoso “mela”.

CPI nacional, jogo regional
A CPI da Covid representa um mega holofote de desgaste político para o governo federal. Disso parece não haver dúvidas. Mas cada senador, independentemente do peso no jogo dentro ou fora do colegiado, está ali pelos votos conquistados em seu estado de origem – apesar de alguns priorizarem a sucessão presidencial em detrimento das disputas regionais e locais.

Economia e relatório paralelo
Espera-se dois clássicos na relação CPI versus sucessão em 2022. O primeiro deles é a situação econômica do País, que historicamente define os humores eleitorais. Também não deverá assustar ninguém um provável “relatório paralelo”, várias vezes elaborado em CPIs de legislaturas anteriores – mesmo quando a atmosfera política não estava tão irrespirável.

CPI da Covid: Mayra pode pagar preço pelo bom desempenho de Pazuello

Na semana passada, um encontro de fatores resultou em saldo positivo para o governo Bolsonaro, na CPI da Covid. Principalmente em relação ao depoimento do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. O Palácio do Planalto esperava algo próximo a um desastre. Não foi. Como reação, no colegiado já se cogita algum tipo de acareação, nova convocação ou algo do tipo. No conjunto, os senadores, à frente o relator Renan Calheiros (MDB-AL), estão irritados. Significa que a próxima a sentar no banco dos depoentes, a médica cearense Mayra Pinheiro, poderá pagar o preço de um general que deu várias ensebadas nos parlamentares – estes quase tão somente de olho nos holofotes.

A oitiva da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde está marcada para esta terça-feira (25). Mayra notabilizou-se pela defesa do uso da cloroquina, inclusive com a suposta institucionalização de protocolos em Manaus (AM). É o chamado “tratamento precoce” – medicações sem nenhuma comprovação efetiva contra o coronavírus. Os senadores vão especular algum tipo de vínculo entre esse receituário e a mortandade que chamou a atenção do mundo – no contexto da falta de oxigênio, que agravou a situação. A conquista da narrativa está em aberto. Mas ela deve se preparar para encontrar senadores bem mais assertivos e aguerridos.

Tasso e Girão
A convocação de Mayra Pinheiro partiu de cinco senadores: Alessandro Vieira (Cidadania-SE), Humberto Costa (PT-PE), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Rogério Carvalho (PT-SE) e o relator, Renan Calheiros (MDB-AL). Chama a atenção o fato de o Ceará ter dois senadores na CPI conterrâneos da médica – Tasso Jereissati (PSDB) e Eduardo Girão (Podemos). Vai ser mais interessante, ainda, a participação de ambos durante as questões levantadas e considerações dirigidas à secretária. No quesito Mayra, Jereissati e Girão estão em lados opostos.

Zezinho no PP de Arthur Lira
O PP de Arthur Lira e companhia, dirigido no Ceará por A.J. Albuquerque, está em vias de receber Zezinho Albuquerque, secretário das Cidades do governo Camilo. É um dos movimentos partidários mais bruscos dos últimos meses. Tanto considerando-se que o PP é do núcleo bolsonarista em Brasília quanto levando-se em conta o perfil conciliador do ex-presidente da Assembleia.

Liderança ajuda e atrapalha
O ex-presidente Lula estaria confortável e satisfeito com a pontuação pré-eleitoral mostrada pelos últimos levantamentos de intenção de voto. Depende. De acordo com o jogo jogado, isso ajuda, mas também atrapalha. São raríssimas as corridas eleitorais com liderança de ponta a ponta, sem falar que quem está melhor posicionado vira alvo fácil e preferencial dos demais. A conferir.

Da arte política de definir candidatos à sucessão

Ciro Gomes e Tasso Jereissati: criatura e criador, que marcaram uma geração de políticos/  INSTITUTO QUEIROZ JEREISSATI/DIVULGAÇÃO

Escolher a cabeça de chapa para uma disputa majoritária é um divisor de águas de qualquer grupo político. Pode dar certo, com sucesso nas urnas e boas surpresas administrativas, ou dar errado, resultando em fiasco eleitoral e desgastes. O Ceará é pródigo em exemplos de ambos os lados. Por aqui, tivemos Ciro Gomes, a melhor e maior cria do então jovem governador Tasso Jereissati. E só. O PSDB nunca passou perto de repetir o feito, limitando-se a vitórias pontuais, atribuídas mais às qualidades pessoais do hoje senador da República do que ao surgimento de novos quadros – o histórico, inclusive, pé-de-barro do tucanato cearense.

Substituto do tassismo na hegemonia política no Estado, o cirismo acertou muito mais. A começar pelos dois irmãos mais novos – Cid e Ivo – testados e aprovados nas urnas, parlamentos e gestões. O diferencial da família Ferreira Gomes, entretanto, está na capacidade de ampliação dos quadros, para além do próprio sobrenome. Nas últimas duas décadas e meia, outras famílias, grupos e talentos individuais foram agregados – alguns, ungidos. Participando do núcleo ou orbitando, fizeram carreira pública. De lá para cá, foram quatro vitórias para governador, três para a Prefeitura de Fortaleza, várias vagas de senador e dezenas de prefeitos e parlamentares.

Faro, audição e instinto
Há uma lista de variáveis que interferem tanto na vitória ou derrota de um nome escolhido por um grupo político quanto no sucesso ou fracasso da gestão, propriamente. Mas chegar ao nome é decisivo. No mundo artístico, o feeling do caça-talentos é fundamental; o olheiro no futebol pode definir quem será o craque do próximo campeonato; as passarelas e seu peculiar glamour são impensáveis sem os scouters. Em cada área esse tipo de perfil recebe um apelido diferente. Na política, são o faro fino, a boa audição e o instinto de sobrevivência do animal político.

A pós-verdade de Pazuello
Vivemos tempos em que a famigerada narrativa, aos poucos, vai tomando o lugar do factível, daquilo que é passível de provas. Grosso modo, é a pós-verdade, convenientemente subjetiva, líquida, fluída, ajustável e com versões alternativas e, propositalmente, confusas. Na síntese, foi o que aconteceu em dois dias de depoimento do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

No país da dislexia
A terceira semana da CPI da Covid pode até não ter avançado sobre a elucidação de possíveis ações e omissões que trouxeram o Brasil à atual e dantesca situação. Mas deu claras pistas de por que o governo Bolsonaro parece disléxico: o conjunto dos depoimentos remete a uma gestão formada de ilhas administrativas, dominadas por burocratas, quando o País é um continente.

A volatilidade do poder e as lições da CPI da Covid

Em química e física, volátil é, basicamente, a propriedade que uma substância tem de dissipar-se, na  forma de vapor ou gás. Em quase todas as vezes, assim é o poder. Com pequenas variações de temperatura, pressão, espaço e tempo, o controle esvai-se entre os dedos. Sendo o tempo, inclusive, a variável mais formidável da perda dessa enganosa sensação de que se está no controle. Tudo isso, num piscar de olhos. CPI da Covid. Quem é agora o então todo-poderoso secretário das Comunicações, Fábio Wajngarten, quem há até poucos meses ou semanas, da ponta de mesa em sala ampla, bem decorada e rodeada dos seus, dava aula de imprensa a chefes de chefes de redação?

Como se apresenta, nos dias de hoje, o à época chanceler Ernesto Araújo, que passava pito em embaixadores do Brasil mundo afora, numa ofensiva bestial nunca vista na histórica cordial diplomacia brasileira ? Ou como deve se sentir o hoje fujão, ex-homem forte da Saúde, Eduardo Pazuello, que tantas vezes abandonou noções de educação pessoal e dever institucional, afora a incompetência na área, para trilhar a selva da brutalidade em entrevistas coletivas? A resposta, simples, que une os três personagens acima, Wajngarten, Araújo e Pazuello: no banco das testemunhas, são fantasmas do que já foram, que mais assustam a si mesmos e a seus ex-chefes.

Com dia e hora marcada
Na semana passada, o experiente senador Omar Aziz (PSD-AM) desceu da condição de presidente da CPI da Covid e deu um conselho ao dissimulado depoente Wajngarten. Em síntese, disse que não compensa para o ex-comunicação do Planalto proteger, em negativas ou evasivas, quem quer que fosse. Os poderosos de hoje, lembrou o ex-governador do Amazonas, têm data para deixarem o controle – não importa como. Isso vale para quem está no topo do mundo, do Brasil, de governos estaduais ou municipais. Na vida pública democrática, é assim que funciona.

Relações para além da covid
A senadora Kátia Abreu (PP-TO) teria fugido ao escopo da CPI, ao tratorar Ernesto Araújo, nesta terça, focando no desmantelo diplomático geral do ex-chanceler com a China – principal parceira comercial do Brasil. Olhando de perto, entretanto, a boa representante do agronegócio nacional dimensionou nossa tragédia, para além dos números da covid.

Jornalismo, esgrima e bolha
Profissionais de imprensa – aqui e alhures – estão prestes a protocolar pedidos de beatificação de políticos que admiram. Esgrimistas da palavra, não hesitam em montar trincheiras em nome de convicções pessoais de bolha – não importando o contraditório e demais preceitos jornalísticos. Lamentável. Isso vale tanto para os polos quanto para a turma do meio.

A semana do “Dia D” e da “Hora H” – ou não

Dois ex-ministros, duas peças-chave. A semana começa sob a expectativa dos depoimentos de Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Eduardo Pazuello (Saúde) à CPI da Covid, em Brasília. Este último, a depender do entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), se o general é testemunha ou investigado pela comissão. Disso poderá brotar o direito do militar a manter-se em silêncio. Pazuello foi o que ficou mais tempo no cargo durante a pandemia e, justamente por isso mesmo e vice-versa, demonstrou dedicação canina ao presidente Bolsonaro. Se a Corte máxima da Justiça brasileira silenciá-lo, estará tirando do Brasil um importante pedaço dessa trágica história.

O STF tem um longo histórico de concessão de habeas corpus a convocados por CPIs. É nesse precedente onde Pazuello se fia, afora a unanimidade jurídica de que a lei desobriga produção de provas contra si. Desde que a Advocacia Geral da União (AGU) entrou com o pedido no Supremo, integrantes da CPI – o relator Renan Calheiros (MDB-AL) à frente -, têm argumentado sobre a relevância das respostas do ex-ministro. Não são favas contadas o STF aquiescer à solicitação verde-oliva. Lembremos que partiu, justamente, do tribunal a determinação para que o Senado instalasse a CPI. Por esse viés, soaria estranho um posterior entrave, vindo, exatamente, de lá.

Homem errado no lugar errado
O depoimento de Ernesto Araújo não é tão menos importante em relação ao de Pazuello. Afinal, ele deve boas explicações sobre a condução da diplomacia brasileira durante a pandemia. Especificamente, em relação à “China comunista” do ex-chanceler. São muito fortes os indícios de que o comportamento do ex-ministro travou ou, no mínimo, atrasou a aquisição de vacinas. Ele foi o homem errado no lugar errado. Nunca o Brasil precisou tanto de habilidosos ministros de Relações Exteriores e jamais esteve tão mal servido.

Efeito cloroquina
A oitiva de Mayra Pinheiro é particularmente interessante ao Ceará, onde a médica insinuou-se para a política – entrou pelas portas do PSDB de Tasso Jereissati e hoje orbita em torno do Podemos do também senador Eduardo Girão. A CPI vai querer saber, da ainda secretária de Gestão do Trabalho e da Educação no Ministério da Saúde, detalhes sobre o uso de cloroquina.

Brasil dependente
A Fiocruz deverá interromper esta semana a produção de vacina anti-covid. Segundo a fundação, por falta de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), importado da China. Reacende-se, portanto, a discussão sobre a dependência tecnológica e científica brasileira. Nunca é demais lembrar que somos o único país relevante do mundo a não ter desenvolvido o próprio imunizante.

CPI e Bolsonaro: saldo negativo e sinais preocupantes

Renan já teria elementos para relatório contundente / LEOPOLDO SILVA/AGÊNCIA SENADO

A CPI da Covid está programada para durar 90 dias – quase 13 semanas, das quais somente duas se passaram até agora. Ainda há pela frente, portanto, muitos depoimentos, bate-bocas e baixarias, assim como colheitas de evidências – ou não – de eventuais responsabilidades políticas e judiciais do governo Bolsonaro no manejo da pandemia. Mas, tomando-se como base o que já foi ouvido e visto até aqui, os trabalhos começaram muito bem para a oposição e muito mal para o governo. Assessoramento paralelo no Palácio do Planalto, tentativa de fraudar bula da cloroquina e a comprometedora carta da Pfizer às autoridades brasileiras são somente parte do problema.

Para além destes elementos concretos, os sinais menos tangíveis, emitidos pelos aliados, são ainda mais preocupantes. A começar pelo posicionamento pouco aguerrido na CPI. Em menor número, a defesa do governo tem dificuldade em se contrapor à narrativa que está sendo construída, segundo a qual, de duas, uma: ou Bolsonaro foi omisso por incompetência ou não atuou de caso pensado, dentro de uma estratégia traçada, para se alcançar a tal imunidade de rebanho. Isso, às custas de centenas de milhares de vidas humanas brasileiras. Some-se a isso a verborragia de baixo calão do presidente e companhia contra a CPI e a rota de fuga do ex-ministro Eduardo Pazuello.

Tem cearense no Conselho da ABI
O Ceará tem, desde esta quinta-feira (13), assento no Conselho Deliberativo da centenária Associação Brasileira de Imprensa (ABI), com a posse do jornalista Salomão de Castro, presidente da entidade em nível de Estado. É uma conquista, haja vista ser a ABI, historicamente, dominada por profissionais do Rio de Janeiro. No Nordeste, somente dois estados – o outro é Pernambuco -, conseguiram o feito. Em tempo: a ABI mantém inflamado discurso pela liberdade de expressão. Apoiado. Mas deveria dar o bom exemplo e se permitir democratizar, com vozes de todo o Brasil.

E assim se passou um quarto de século
Os 25 anos da urna eletrônica, comemorados esta semana, é um marco na linha do tempo democrático do País. Velho conhecido de pelo menos duas gerações de eleitores brasileiros, o sistema segue firme, forte, seguro e auditável. Nosso modelo de votação e apuração é reconhecido mundialmente. À exceção dos obtusos plantonistas do atraso.

As paredes como testemunhas
O edifício Deputado Adauto Bezerra, sede do Poder Legislativo no Ceará, fez 44 anos nesta quinta-feira (13). Como bem metaforizou o presidente da Casa, Evandro Leitão (PDT), o prédio “é testemunha de uma história recente do Ceará”. Sem dúvidas. Não foram poucos os embates, acordos, votações, alegrias e surpresas ali vividos, frutos dessa coisa chamada democracia.