Moro e os critérios da elite brasileira

Da coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta sexta/10:

Quem melhor pontua na 3ª via até aqui, ex-juiz é bola da vez / Marcelo Camargo/Agência Brasil

Num país em que as “zelite” fazem stories na Casa Grande do século XXI, embora ainda com os pés na senzala de duzentos anos atrás, aristocráticas e patrimonialistas que são, não se admira que entre eleição e saia eleição e elas continuem lá, dando as cartas no processo eleitoral nacional. Para ficarmos em casos mais recentes, apoiaram Collor e a saga antimarajás, festejam FHC e a estabilidade econômica, engoliram Lula e a bolha de consumo e, mais recentemente, admitiram Bolsonaro e sua translouquice antissistêmica. Para 2022, na pior versão nem o passado como foi nem o presente como está, o ex-juiz e ex-ministro do atual governo, Sérgio Moro, é a bola da vez.

Como pré-requisitos, sempre estiveram presentes o mercado e a grande imprensa – esta, não mais tão grande assim. Mesmo assim, fundamental para validar o ungido. O fato é que, não por coincidência, nenhum deles subiu ou subirá a rampa do Planalto sem as bênçãos do mercado financeiro, megacorporações empresariais e conglomerados de mídia. Isso aconteceu até com Bolsonaro, por linhas tortas e o sentimento antilulopetismo aglutinado de 2018. A tragédia, no entanto, está no fato de o suposto escolhido para tocar os rumos do País, no espectro da terceira vaia, ser alguém tão ou mais estranho ao cargo como o personagem obtuso que hoje o ocupa.

Ele não tem projeto de desenvolvimento
A história das nações modernas dos últimos séculos é a história das escolhas de suas elites – desde os modelos econômicos às suas lideranças políticas. Por estes escrutínios, passaram grandes presidentes da República e primeiros-ministros, que conseguiram pensar os estados nacionais para além dos problemas do presente ou os entulhos do passado. Ter domínio sobre um projeto de desenvolvimento nacional, com experiência política, conhecimento dos gargalos do Brasil e o que fazer, deveria ser o sine qua non. Sérgio Moro, todos sabemos, não reúne essas condições.

Como vimos, eleição não é tudo
A entrada de Sérgio Moro na briga eleitoral do ano que vem acionou as sirenes no Palácio do Planalto e no Instituto Lula. Polarizados, o atual e o ex-presidente se repelem, na mesma proporção, o que lhes dão, mutuamente, altos índices de rejeição. Com bom grid, o pré-candidato do Podemos pode capitalizar de ambos os lados, com chances de ir ao segundo turno ou mesmo à posse. E depois?

Onde estão Ciro, Doria e Pacheco?
Com alto recall, Lula lidera; Bolsonaro tem a caneta e Moro vai tentar surfar no moralismo jurídico. Debater o País, que é imprescindível, rosca. O Brasil é muito maior do que esse maniqueísmo. Foi, justamente, essa superficialidade que nos trouxe até aqui. Onde estão as ideias e sede de debate de Ciro? A eficiência e o pragmatismo de Doria? Ou mesmo a pose e o equilibrismo de Pacheco?