Mercado, imprensa, políticos e a terceira via

Em 2018, houve erros grosseiros nas previsões / Freepik

Nos últimos dias circularam reportagens e análises, segundo as quais a disputa presidencial de 2022 será, efetivamente, entre o bolsonarismo e o lulopetismo. As apostas estariam vindo, particularmente, de parte do mercado, da imprensa e do meio político. Ora, ora! O mercado, conservador por natureza, vê a curta distância. No máximo, tenta algum tipo de previsibilidade, para melhor se proteger. A chamada grande imprensa – não mais tão grande assim! -, segue mais ou menos a mesma toada. Ancorada ora no próprio mercado ora no oraculismo que lhe é peculiar, busca se valorizar em meio às águas turvas. Para tanto, puxa para si o farol da sucessão de 2022. É por onde vislumbra sair da própria crise.

E o que dizer do mundo político-partidário? Nesse ponto, há bem menos o que afirmar. Somente que envelhecidos, alguns dos ainda chamados líderes políticos no Brasil entraram na lógica inercial. Jogam com a bola parada, à espera da posse do próximo inquilino no Palácio do Planalto, para criarem problemas e venderem solução. Sempre foi assim. E o que une muitos dos porta-vozes do mercado, imprensa e meio político, aos se dizerem descrentes sobre o surgimento de um nome que aglutine o largo espectro eleitoral da terceira via? Acertou quem pensou nos prognósticos grosseiramente errados que todos eles cometeram em 2018.

Lula mãos de tesoura
A metáfora é velha, mas não custa nada citar aqui. Na política, há situações e contextos em que (não é pleonasmo) as aparências enganam. Vejamos o noivado Lula-Alckmin, depois de duas décadas de tapas e tapas. Sem trocadilho, a costura entre os dois remete a tesoura. Explicando: trata-se de objeto afiado, com duas hastes, cujos objetivos são cortar e furar. Mas, atenção, tesouras são, em regra, manuseadas pela mesma mão. Lula e Alckmin seriam faces da mesma moeda. Separados ou unidos, ao bel interesse. Créditos originais da teoria são atribuídos ao chefe russo Lênin.

O governo Dilma existiu?
Estou começando a desconfiar que não. Pelo menos a julgar pelas omissões que petistas vêm cometendo, ao falarem dos supostos anos dourados do PT no governo. Onde estão 2014-2015 e suas extravagâncias? É a mesma lógica, só que invertida: fale uma mentira mil vezes até virar verdade. Dê chá de amnésia em doses homeopáticas até os fatos caírem no esquecimento.

Nãos mãos da militância
Inácio Arruda (PCdoB) faz planos de voltar ao Parlamento, depois de 30 anos de parlamento e sete de governo Camilo Santana. No apagar das luzes de 2021, deixou a Secitece – onde deixou legados -, para ajudar o partido na luta para fugir da degola. Em entrevista ao programa Política, da TV Otimista, listou os primeiros obstáculos: consultar a família e seduzir a militância comunista.

Por que partidos vão priorizar a disputa para deputado federal

Corrida à Câmara Federal transformará disputas majoritárias estaduais em questões menores / José Cruz/Agência Brasil

Nunca a eleição para deputado federal foi tão visada no Brasil quanto a que teremos em 2022. Não pelas atribuições e privilégios inerentes ao mandato – na média geral, esses justos direitos existem para o pleno exercício da representação parlamentar. Tais características vão continuar, basicamente, as mesmas de legislaturas passadas. Mas sim pelo poder real das bancadas, no Congresso Nacional. No melhor dos mundos, quando alinham interesses, não necessariamente, republicanos, tais grupos passam a viver das circunstâncias, inclusive econômicas, que somente o poder é capaz de viabilizar. É fácil entender isso quando se olha para o bilionário orçamento secreto.

Mas isso é somente a ponta do que é visível e organizado em larga escala, em torno de uma ofensiva desencabulada. Obra do centrão, a eufemística emenda do relator é o mais bem acabado exemplo de atuação em bloco em benefício próprio. Num roteiro que parece muito bem ensaiado, o centrão avançou sobre o Executivo, passando a barganhá-lo, cotidianamente, e desafiou o Supremo, num acinte jamais vista. Sob a liderança de Arthur Lira e outros, ser deputado federal, atualmente, vai muito além da conquista de um lugar no centro do debate nacional. Por isso, muitos dirigentes partidários estão deixando as disputas majoritárias estaduais como algo menor.

Disputas estaduais em segundo plano
Fazer parte de uma grande bancada na Câmara dos Deputados é mandar num pedaço de Brasília, com muitos poderes Brasil afora. O Governo Federal é a foz do rio caudaloso e trilionária, por onde escorre, dia e noite, muito dinheiro, para os rincões e redutos eleitorais. Isso, sem falar no varejo do dia a dia quando, longe dos olhos do distinto público, o baixo clero faz a festa. Não é difícil, portanto, donos de partido no País, de uma maneira geral, poderem ser divididos em dois grupos: os que só pensam em eleger deputado federal – e admitem isso -, e os que só pensam nisso, mas desconversam.

Grandes podem voltar maiores
Dentro da legislação – que se diga, é feita pelos próprios -, a dinheirama que custeia todo o processo eleitoral é um banquete para as siglas que elegem muitos deputados federais. Dividido, proporcionalmente, ao tamanho das bancadas, o fundo eleitoral é uma espécie de retroalimentação do sistema. Acertando na veia, as bancadas grandes tendem a voltar ainda maiores.

Não são somente boas intenções
Como diz o clichê, os parlamentos são pulmões da democracia. Devem existir de forma plena e sempre revigorada, formados através de eleições livres e seguras. A questão nem é essa. O problema são os vícios e distorções no exercício do mandato de representação delegada. Todos os candidatos pedem voto declarando-se com a melhor das intenções. Mas de boas intenções…

Quem controlará o União Brasil no Ceará?

Sede do Governo do Ceará, principal objeto de disputa no ano que vem/Ascom

A pergunta acima está entre as três mais importantes da disputa eleitoral que se aproxima. Em outras palavras, é uma das variáveis que ajudarão a definir o próximo governador do Ceará. As demais, em ordem de importância, são: 1) o PT-CE segue com o PDT-CE ou vai tentar carreira solo? 2) o governador Camilo Santana (PT) vai até o fim do mandato ou sairá em abril, para concorrer ao Senado? Vistas, isoladamente, parecem somente indagações. Não são. Havendo cisão PT-PDT, o cenário muda radicalmente, assim como será alterado, profundamente, caso Camilo permaneça no cargo. Os rumos do União Brasil completa a trinca de incógnitas.


O xadrez não
para por aí. Como são decisões intimamente interligadas, a resposta a uma das perguntas impacta, diretamente, nas demais. Por exemplo: com o PT fora da coligação, a margem de manobra governista diminuiria, o que pressionaria para uma eventual permanência no cargo do bem avaliado governador. Outra: a definição sobre o União Brasil – que se ficar com a oposição já nascerá forte no Ceará -, pode valorizar ainda mais o passe do PT no palanque governista. Tanto é assim que o melhor dos mundos para a base governista, atualmente, é segurar o PT e garantir o União Brasil no controle de um aliado. Nesse cenário, Camilo é candidatíssimo ao Senado.

No páreo, Chiquinho pode ficar com sigla
A oposição já esteve mais animada em relação ao União Brasil. No início, o presidente do PSL, deputado federal Heitor Freire, prometera o controle da sigla ao pré-candidato a governador Capitão Wagner, hoje no Pros. Não vai ser fácil. O presidente do DEM no Ceará, o ex-deputado e novamente pré-candidato à Câmara dos Deputados, Chiquinho Feitosa, faz expediente, em Brasília, para presidir o UB no Estado. O movimento ganhou força nos últimos dias, com o anúncio de que o também empresário assumirá o mandato de senador, com a licença de Tasso Jereissati.

De protagonistas a coadjuvantes: por que partidos perderam relevância

Da Coluna Erivaldo Carvalho, do jornal O Otimista, desta segunda/14:

A maioria tem dono, muitos estão esvaziados e alguns são cartoriais – só aparecem em tempo de eleição, para registro de candidaturas. A definição acima cabe em quase todos os partidos políticos – pequenos, médios e grandes. São 33 deles. Uns, envelhecidos pelo tempo. Outros, já nasceram velhos. Em comum têm o esvaziamento político e a pouca relevância. Tanto é assim que o prazo final para convenções partidárias desta quarta-feira (16/09) deve mostrar um cenário de disputa de prefeituras e câmaras municipais em que grandes siglas de outrora serão confirmadas em posição de coadjuvantes.

Onde e quando essa decadência começou? A resposta é multifatorial. Pode estar relacionada com a conquista do poder, seguida de acomodação. Ou o fato de não ter disposição para disputar mandatos – o que é uma grande contradição. O problema pode ser o dono, que prefere ver seu rebanho de filiados inchar, quantitativamente, sem preocupação com a qualidade de seus quadros. É uma pena, já que partidos políticos no Brasil são canais por onde, bem ou mal, escoa a democracia. As agremiações, nacionais e regionais, com as exceções de praxe, precisam ser oxigenadas e melhor conduzidas.

Mapa do poder municipal começa a mudar antes mesmo das eleições

Marcha dos Prefeitos, em Brasília, em 2019: em busca de verbas e apoio político

Levantamento da Folha de S.Paulo desta quinta/9, mostra que, entre 2017 e 2020, houve um forte movimento, em nível nacional, de prefeitos municipais, da centro-esquerda para a centro-direita.

DEM, PSD, PP, Cidadania e PSL engordaram suas fileiras, enquanto MDB, PSDB, PSB, PDT e PT sofreram desidratação.

O jornal paulista atribui a migração ao fato de o controle político do governo federal ter mudado de lado.

De pires na mão, a maioria dos chefes municipais Brasil afora teve de se render a quem hoje tem acesso a verbas, emendas e projetos.

É verdade que em algumas situações camaleônicas específicas, os anfitriões brasilienses não mudam – não importa os rumos do poder.

Berço do cirismo e governado por um petista, o Ceará é uma situação sui generis desse novo mapa do poder municipal.

Mesmo em campos opostos no Congresso Nacional, o PDT dos Ferreira Gomes atraiu novos prefeitos, enquanto o PSD de Domingos Filho dobrou o número de prefeitos.

Na outra ponta, o PSDB de Tasso Jereissati e o MDB de Eunício Oliveira sofreram as maiores baixas – situação análoga ao cenário nacional.

Toda a dinâmica, claro, tem relação direta com a disputa eleitoral que se aproxima.

Em novembro próximo, a depender do padrinho político, prefeitos e/ou candidatos podem levantar a taça ou beijar a lona.

Também é óbvio que esse é somente uma das variáveis que definirão o novo mapa político municipal.