O que esperar da oposição com Bolsonaro infectado pela Covid-19

Da coluna Erivaldo Carvalho, edição desta quarta/8, do jornal O Otimista

Presidente da República entra para as estatísticas da pandemia

Quando pensávamos que o vexame pandêmico do País, em escala internacional, tinha atingido o platô, eis que o presidente da República é diagnosticado com a Covid-19. Logo Jair Bolsonaro, negacionista, reacionário, receitador de cloroquina e outras atitudes que vagueiam entre o esdrúxulo e o despreparo. Mas vamos aos possíveis desdobramentos. Em primeiro lugar, vale o registro de que o sexagenário ex-capitão do Exército é do grupo de risco – apesar de seu “histórico de atleta”. Em bom português, é prudente aguardar a evolução do paciente. Pode ser uma “chuva que todo mundo vai pegar”, como rogou o próprio, na coletiva que concedeu para anunciar o resultado. Ou algo mais delicado, que inspire os cuidados protocolares e institucionais próprios da contaminação e do cargo que o agora paciente ocupa.

O presidente entrou no corredor das estatísticas que tanto tripudiou. Inevitavelmente, sairá do outro lado, alimentando algum número dos próximos relatórios, que já registram 1,6 milhão de brasileiros contaminados, 66 mil mortos e 1,1 milhão de recuperados. O assunto, de interesse mundial, elevou ao teto as curvas de audiência e interesse do público. Previsivelmente, as entrincheiradas redes sociais não perdoaram. Foram inundadas por memes, piadas, sarcasmos e ironias. Mas até onde vai tudo isso? Bolsonaro está com Covid-19, muito, provavelmente, por seu próprio risco, conta, retardo e insolência. Bater tambor à porta de enfermaria ou UTI só fará lembrar que quem faz política em corredor de hospital é pior do que o vírus – o micro organismo, pelo menos, não tem ideologia nem pede voto.

A política da estupidez

Antibolsonaristas têm, diante de si, uma bela chance de mostrar que a política deve acontecer da porta de hospital para fora. O debate, civilizado, deve ser nas ruas, nas redes e nas urnas. Sob pena de mostrarem ao Brasil que sofrem de uma pandemia igualmente ou mais grave do que a Covid, com sintomas muito além da falta de ar, cansaço muscular e tosse seca. Insensibilidade humana, desprezo para com o próximo e vendeta não são próprios da política. A não ser que tenhamos optado por este estúpido novo normal.

Os impactos do coronavírus nas eleições municipais

De forma diferente, Covid-19 afetou estratégias de governo e oposição na disputa pelo voto

As eleições municipais acontecerão em 2020. Significa que, independentemente da extensão e distensão da pandemia, todas as forças políticas terão de se ajustar à nova realidade. Mas não está fácil para ninguém.

Governo – Antes das primeiras contaminações e mortes pelo Covid-19, prefeitos já ensaiavam regimes financeiros rígidos, por força da crise econômica pré-pandemia.

Agora, com o desafio de caixa ainda maior, terão de rever para baixo muitas expectativas na entrega de resultados – obras, por exemplo -, a clássica fórmula da musculatura eleitoral.

Muitos gestores terão em seus rastros denúncias de mau uso de verbas, uma certa antipatia da população – previsível em tempos de crise -, e a tensão política nacional, que deverá ficar cada vez mais animada.

Oposição: do outro lado não é muito diferente. Independentemente do tamanho do município, as articulações de opositores não fluem como planejadas. Com o isolamento social e o deslocamento restrito, campanhas de filiação, por exemplo, foram canceladas.

O compasso de espera da oposição derrubou eventos partidários, como anúncios de alianças e, com sessões parlamentares remotas, os que estão em mandato perderam holofotes.

Em busca de alternativas, alguns opositores denunciam supostas falhas no combate à Covid-19. É um risco. Poderão tanto lograr êxito quanto serem acusados de fazer política com um olho na urna eletrônica e o outro na urna funerária.

Tudo somado e considerado, temos, em plena pandemia, um calendário eleitoral em curso, mesmo sem sabermos quando e como será a campanha, propriamente, e governos e oposições desorientadas, com mais dúvidas do que respostas.

Mas em um ponto a maioria concorda: levará a melhor nas eleições deste 2020 quem souber reelaborar suas estratégias pós-pandemia e, principalmente, executá-las a tempo.