Sobre liberdade, censura, piada e violência

Festival das polêmicas declarações aconteceu no último domingo, em São Paulo / Agência Brasil/ Reprodução

Dois episódios, neste último final de semana, convida-nos a refletir sobre até onde vai a liberdade de expressão e o respeito amparado na civilidade e legalidade. No epicentro do primeiro caso estão as falas de artistas brasileiros no festival Lollapalooza, em São Paulo. Visto, num primeiro momento, pela Justiça Eleitoral, como ato de campanha antecipada, a polêmica reacendeu o debate sobre censura e outros entulhos da memória coletiva nacional.

A quase 10 mil km do Autódromo de Interlagos, no Teatro Dolby, em Los Angeles, uma piada trouxe à tona os instintos raízes de um astro hollywoodiano, numa das cenas mais repetidas desde então, candidatíssima à galeria da fama.

É absolutamente defensável a manifestação política no festival da capital paulistana. Não somente por se tratar de ambiente artístico, juvenil e outros pretextos. É simplesmente por ser o exercício da liberdade de manifestação e opinião. Às vezes, é dureza conviver com o contraditório. Só evitaria os termos de baixo calão. Deseduca. Passa do ponto. Nada acrescenta à crítica política. Além disso, pode incentivar a violência.

A propósito de violência, corta para a cerimônia do Oscar. A reação às provocações de péssimo gosto – a quem chame isso de piada -, a que se seguiu o soco no apresentador, foi um equívoco. Trocar a razão pela emoção é sempre um conselho ruim. Com a força midiática de que o ofendido dispunha, o tapa na cara do humorista poderia ter sido desferido de outra forma.

A pauta de Célio Studart
Literalmente abraçando a causa animal, Célio Studart (ex-PV, hoje PSD) foi muito bem votado a deputado federal em 2018. Porém, com cada vez mais apelo eleitoral, a bandeira, aos poucos, deixou de ter somente um rosto. Muitos passaram a explorar o mesmo nicho. Isso ajuda a explicar porque Célio vem intensificando a variação de sua atuação política. Ele fez uma boa articulação na luta pelo piso nacional de enfermagem e foi ativo, entrando na Justiça, contra o mega reajuste de combustíveis pela Petrobras. Mais recentemente, entrou em campo a favor da isenção fiscal para a aquisição de veículos novos para pessoas com deficiência. Errado não está. Manter-se deputado é mais difícil do que chegar lá.

Não brigue com pesquisa
De euforia contida à frustração dissimulada, pesquisa de opinião pública, focada em cenários eleitorais, mantém firme relação de amor e ódio com praticamente todos os personas da arena política. Para profissionais do ramo, entretanto, o instrumento técnico e científico de medição sempre é útil – mesmo quando traz más notícias. Portanto, não brigue com pesquisas. Poupe seu tempo, energia e aprenda a dialogar com os índices.

Eleitor, o pragmático
Em 2005, estourava o escândalo do mensalão, até ali a maior crise moral da história do PT. No ano seguinte, o então presidente Lula foi muito bem reeleito. Grosso modo, a explicação está nos anos de ouro da era Lula, responsável por um dos maiores ciclos de ascensão social do Brasil. Foi a época de pobre fazer fila em banco, viajar de avião e sonhar com curso superior. Moral da história: o eleitor é muito mais pragmático do que supõe a vã filosofia.