O depoimento de Mandetta e a assombração ao Palácio do Planalto


Foi um dia para ser esquecido pelo governo Bolsonaro. Ou para não ser bem guardado, depois de dissecados cada resposta, comentário ou adendo do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), no depoimento à CPI da Covid, no Senado, nesta terça-feira (4). Nas palavras do relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), foram “revelações graves”. De acordo com o ex-chefe da pasta, houve desprezo pela ciência, reforçado pela percepção de “aconselhamento paralelo” negacionista, tentativa de mudar bula de remédio ineficiente contra a covid-19 – crime tipificado -, e dificuldades às tentativas de aquisição de insumos da China. E muito mais.

Obviamente que foi somente o primeiro de dezenas de oitivas e demais procedimentos previstos no plano de trabalho da comissão. Vêm aí o legítimo contraditório, com defesas, manobras, ameaças, recados, cortinas de fumaça, desvios de atenção e todo tipo de artifício a que um pesado ambiente político desses tem direito. Afinal de contas, estamos falando de algo que pode, no limite, valer um mandado de presidente da República. Contudo, o que foi dito e ouvido ontem, parece ser, de início, o suficiente para levar a CPI a começar a farejar o fio da meada que poderá levar as mais de 400 mil almas de brasileiros que se foram a atormentar o Palácio do Planalto.

O melhor ataque contra a pior defesa
Os dois principais ex-ministros da Saúde da pandemia, Mandetta e Eduardo Pazuello, depondo, nesta sequência, é uma espécie de spoiler da CPI. O primeiro, político experiente, eloquente, de pensamento organizado, cortês e técnico, municiou os senadores com muitos argumentos e informações contra o governo. O segundo, um estranho à área da saúde, rude e obediente cego. Mesmo treinado, o general, dificilmente, terá condições de rebater a versão de que o governo Bolsonaro agiu com dolo eventual no enfrentamento à pandemia de covid-19.

De fora para dentro
Política regional, não raramente, é o reflexo da força de personagens, de fora para dentro, a partir da atuação lá fora. O raciocínio é simples, tomando como base 2022: se é bom para o Brasil é ótimo para o Ceará. Mas, atenção: também pode ser a velha e conhecida saída honrosa do “perder para cima” – quando a aldeia já não mais credita tanto poder ao pajé.

Terceira via é o futuro
A quem interessa o Brasil dos extremos? Resposta simples: a grupos que, baseados na teoria do inimigo externo, sempre se deram bem na estratégia do “nós contra eles”. A última corrida presidencial foi o ápice, mas a sina brasileira existe desde a redemocratização. Nunca uma sensata e ponderada terceira via foi tão necessária para o futuro do País.

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